quinta-feira, abril 28, 2005



Sufoco. A cada palavra tua não dita. A cada sorriso teu afastado. A cada gesto teu escondido.

Morro. Matas-me ou Mato-me. Talvez te Mate, pior ainda, talvez nos Mate.

Sufoco, na verdade, perco o ar. A cada memória extraviada no tempo. A cada música que recordo. A cada texto composto pelas estrelas.

Sinto-me mais que amarrada, numa teia de aranha que me prende as pernas e os braços e não me deixa naufragar no dia, na noite, nas horas...em mim!

E espero, já sem fôlego, que venha a Luz e que ela, eroticamente, me desenlace destas cordas de fumo e me deixe sentir como é ser Livre...

terça-feira, abril 19, 2005

Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si...

Cantamos na mudez dos gemidos a partitura que Deus escreveu especialmente para nós. No escuro do quarto, procuro a tua boca, o teu nariz, o teu ombro e o teu joelho. Não encontro definição nem conceito. Apenas um amontoado abstracto de peças soltas e disformes do teu corpo suado. Continuamos a gritar o e o da nossa paixão e nem que as estrelas desapareçam do céu e aterrem todas na terra, ateando um fogo universal, nós deixaremos de cantar este Mi e este que nos embala...porque pertencemos um ao outro como um filho a uma mãe, como um Sol e um a uma guitarra...
Adormece...junto ao meu ventre...adormece...
Si...

quinta-feira, abril 14, 2005

Dar-te-ei!

Procuras-me, hoje, selvagem e apaixonado. Entrego-te o meu corpo, sem limites. Faz-me sentir viva. Fazer-te-ei planar no céu estrelado, tocar no Sol e beijar a Lua. Apenas se me fizeres sentir viva. Dar-te-ei as montanhas e as praias, a chuva, a neve, o calor e o orvalho. Se me fizeres sentir viva. Se me trouxeres de novo para a euforia do dia a dia. Basta-me isso e dar-te-ei Deus.

quinta-feira, abril 07, 2005

Palavras no Bosque

Abro os olhos o máximo que consigo e fixo o olhar neste bosque onde o verde se mistura com o castanho e as árvores são pequenos gigantes das grandes cavernas do Norte...fecho-os ainda com mais força para gravar na minha memória o som das águas dos riachos que acompanham o caminho e a melodia cantada em cânone pelos diversos pássaros deitados sobre as ramadas das árvores.

A chuva que cai torna a terra mais viva, metamorfoseando-a em lama...quente e abstracta...os meus pés são de barro, moldam-se com o andar constante pelos trilhos que me levam a Compostela...

As mãos de plasticina agarram com firmeza o cajado que marca o ritmo que faço com o andar, e todo o meu corpo náufraga nesta beleza que não se explica em palavras.
Milhares de outros peregrinos já passaram por cima destas folhas secas que estalam ruidosamente: ainda oiço as suas preces e orações e os seus pensamentos folhados de força e coragem. Milhares de outras pessoas seguiram as setas e as vieiras para chegar à imponente cidade de Santiago, como eu agora sigo atentamente. Elas (as vieiras) desenham o norte, o trilho que leva ao sonho e à utopia.

A minha alma entrega-se a este diário de bordo que lança palavras ao bosque e procura o ânimo na vegetação e paisagem inesquecíveis.

Aconselho esta viagem a todos que queiram conhecer-se a si mesmo, como o Papa João Paulo II fez em 1982 durante os Caminhos e como eu fiz agora em 2005 e como tantos outros já fizeram em séculos passados.

Esta foi a minha oportunidade. Não percam a vossa…