Quarta-feira, Maio 20, 2009

Não posso desculpar-me.

Desculpa-me. É o que me apetece dizer-te vezes sem conta; desculpa não ser a perfeição, desculpa não ter em atenção todas as minhas formas que te agonizam, desculpa não ter conversa fiada e interessante, não ser todos os dias lufadas de ar fresco, não me apresentar diferente mas única em todas as vezes que estamos. Desculpa se me esqueço que te esqueces, se exijo que exijas, se preciso que precises. Desculpa se peço tantas vezes desculpa; se calhar, não devo fazê-lo, para bem de todos. Não posso desculpar-me mais pelo que sou, pelo que faço, pelo que digo, pelo que não digo. É pegar ou largar, como diz a canção. Eu sou assim. Um círculo vicioso de vai e não vai, de querer e não querer, de pedir e não pedir, de ser e não ser. Eu sou mesmo assim...

Aceitas-me?

Terça-feira, Outubro 07, 2008

Outono

Vim saber ao que sabe o primeiro sabor de chuva deste ano. Vim saborear o cheiro a terra molhada e ao ar húmido. Vim deliciar-me com um café quente na primeira noite em que faz frio.

Saí de casa de cachecol ao peito e casaco de lã. O calor da roupa traz-me harmonia e sinto aquele prazer de Outono.

Refugio-me no jazz balanceante dos anos 60 que toca na velha telefonia do café. As mesas cor de café e o próprio café de travo amargo transportam-me para uma realidade onde só existo eu e os meus pensamentos.

As vozes ao fundo fazem-me crer que não estou sozinha. Mas hoje sinto-me só e, pela primeira vez, sabe-me profundamente bem. Faz-me bem.

É nesta solidão outunal que decido partir. Para um novo caminho que se desenha sinuoso mas aliciante e onde me espera a felicidade, uma outra felicidade.

A luz do candeeiro treme e sei que o mundo lá fora corre. Eu, aqui dentro, escondida entre o crepitar da lareira e o som da máquina antiga de café, páro. Páro para realizar que vou partir. E digo ao mundo hoje que vou partir.

Este partir desenha-se, agora, como uma força que me impele a sentir o frio. E, por isso...tiro o casaco, guardo o cachecol na bolsa e faço o caminho de volta para casa. O frio faz-me sentir que parti.

Domingo, Abril 13, 2008

É talvez o último dia da minha vida.

Saudei o Sol, levantando a mão direita,

Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus,

Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada.

Alberto Caeiro


....serás o meu sol? serei o teu sol?

Não sei dizer Adeus.

Segunda-feira, Janeiro 21, 2008

Linhas

São linhas. Se olhares direito são, somente, linhas. Aquilo que nos prende, sim. São linhas de um carrinho de linhas de uma velha caixa de costura. São linhas pretas, brancas, azuis, amarelas, laranjas, vermelhas, verdes, violetas, linhas de todas as cores e cor nenhuma; linhas transparentes, translúcidas.
São linhas. Linhas tristes, linhas alegres, linhas que falam e que contam histórias de fadas, que cantarolam histórias de embalar, que recitam estórias nossas.
São linhas que tecem pecados, que unem pensamentos, que cosem feridas.
São linhas que, um dia, poderão ser cortadas por uma tesoura; quer seja ela pequenina, quer seja ela uma tesoura de gigante. Ou, então, podem, simplesmente, rasgarem-se. São linhas que se podem rasgar, de facto. Ou que se podem desgastar e romper por cansaço.
São linhas finas. Frágeis. Delicadas. Por isso, preciosas.
São estas linhas que me unem a ti. São estas linhas que quero que perdurem. São estas linhas que seguem, em paralelo, com as tuas; tantas vezes, sobrepostas; algumas afastadas. São estas linhas que quero cuidar, pelas quais quero e preciso de estar atenta.
Porque um dia em que não hajam mais linhas...
...não há mais Amor.

Sexta-feira, Novembro 09, 2007

Ensina-me a amar-te, sem medos, sem dor, sem mágoas.

Sem culpa.

Sexta-feira, Outubro 26, 2007

Casa

Uma casa desconhecida; quiça, nunca antes tocada. Uma casa cujas paredes imaculadas contam segredos de outrora, falas silenciadas que escondem gritos abafados. Uma casa onde estou, despojada de minh'alma, onde me perco propositadamente para me encontrar, enfim, no meu corpo. Uma casa onde, a cada passo, descubro um pouco mais do mundo, um pouco mais de mim. Esta casa onde fico e te encontro, sentado numa poltrona, descansando. Fumas cachimbo e lês o jornal, de perna traçada olhas-me por cima do ombro. Aproximo-me a medo, com medo de retirar toda a pureza e o mistério que envolvem esta casa.

Pergunto-te, baixinho, quem eras...respondes, sussurando, sou eu, a tua casa...

E assim me apaixonei, por uma casa sem dono que me seduziu e a quem passei a pertencer. E assim amei África, casa desconhecida, nunca tocada, de contornos puros que escondem ditos e não ditos de gente que não pode dizer mais do 'sejam bem vindos à minha terra'.

Uma casa, África...

Terça-feira, Outubro 09, 2007

Homicídio

A janela está entreaberta. E a frescha minúscula exala uma brisa gélida, do tipo Outunal, que me arrepia e que se entranha no corpo, agora abandonado.

Ele olha para mim uma última vez, o seu olhar penetra na minha pele e sinto-o vaguear pelo meu interior, praticamente exposto. Ele acabará por sair, mais minuto, menos minuto, deixando-me para trás, destruída.

A porta bateu e ele, do lado de lá, deixa escapar um suspiro. O seu corpo trémulo é espelho das suas mãos ensaguentadas, do frio que sente, do suor que escorre na sua face. Todo ele é agora um misto de sensações, não de sentimentos.

Conforme se afasta, o meu corpo tende a arrefecer. Talvez a janela se tenha aberto mais um pouco ou então talvez seja a morte que chega, lentamente, com o frio.

Foi tudo medido ao pormenor. Em vez de me provocar uma morte rapida, ele escolheu o castigo extenso, tenebroso, lento, gélido. Talvez eu tenha merecido, o erro possivelmente foi meu. Deixar-me entregar desta forma.

Não se deve amar. Pelo menos, da forma como amei. Pois agora que ele já não me quer mais, foi como se me tivessem morto.

Um homicidio inigualavel, o homicidio de amor.

Deixo-me, então, invadir pelo frio causado pelo seu abandono, esqueço o sangue das suas maõs, o seu olhar invasivo, esqueço que sou e deixo-me ficar tal e qual ele também me deixou. Nos entretantos, espero um corpo quente que me acorde, de novo, para outro amor.