É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o Sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus,
Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada.
Alberto Caeiro
....serás o meu sol? serei o teu sol?
Não sei dizer Adeus.
Domingo, Abril 13, 2008
Segunda-feira, Janeiro 21, 2008
Linhas
São linhas. Se olhares direito são, somente, linhas. Aquilo que nos prende, sim. São linhas de um carrinho de linhas de uma velha caixa de costura. São linhas pretas, brancas, azuis, amarelas, laranjas, vermelhas, verdes, violetas, linhas de todas as cores e cor nenhuma; linhas transparentes, translúcidas.
São linhas. Linhas tristes, linhas alegres, linhas que falam e que contam histórias de fadas, que cantarolam histórias de embalar, que recitam estórias nossas.
São linhas que tecem pecados, que unem pensamentos, que cosem feridas.
São linhas que, um dia, poderão ser cortadas por uma tesoura; quer seja ela pequenina, quer seja ela uma tesoura de gigante. Ou, então, podem, simplesmente, rasgarem-se. São linhas que se podem rasgar, de facto. Ou que se podem desgastar e romper por cansaço.
São linhas finas. Frágeis. Delicadas. Por isso, preciosas.
São estas linhas que me unem a ti. São estas linhas que quero que perdurem. São estas linhas que seguem, em paralelo, com as tuas; tantas vezes, sobrepostas; algumas afastadas. São estas linhas que quero cuidar, pelas quais quero e preciso de estar atenta.
Porque um dia em que não hajam mais linhas...
...não há mais Amor.
Sexta-feira, Novembro 09, 2007
Sexta-feira, Outubro 26, 2007
Casa
Uma casa desconhecida; quiça, nunca antes tocada. Uma casa cujas paredes imaculadas contam segredos de outrora, falas silenciadas que escondem gritos abafados. Uma casa onde estou, despojada de minh'alma, onde me perco propositadamente para me encontrar, enfim, no meu corpo. Uma casa onde, a cada passo, descubro um pouco mais do mundo, um pouco mais de mim. Esta casa onde fico e te encontro, sentado numa poltrona, descansando. Fumas cachimbo e lês o jornal, de perna traçada olhas-me por cima do ombro. Aproximo-me a medo, com medo de retirar toda a pureza e o mistério que envolvem esta casa.
Pergunto-te, baixinho, quem eras...respondes, sussurando, sou eu, a tua casa...
E assim me apaixonei, por uma casa sem dono que me seduziu e a quem passei a pertencer. E assim amei África, casa desconhecida, nunca tocada, de contornos puros que escondem ditos e não ditos de gente que não pode dizer mais do 'sejam bem vindos à minha terra'.
Uma casa, África...
Terça-feira, Outubro 09, 2007
Homicídio
A janela está entreaberta. E a frescha minúscula exala uma brisa gélida, do tipo Outunal, que me arrepia e que se entranha no corpo, agora abandonado.
Ele olha para mim uma última vez, o seu olhar penetra na minha pele e sinto-o vaguear pelo meu interior, praticamente exposto. Ele acabará por sair, mais minuto, menos minuto, deixando-me para trás, destruída.
A porta bateu e ele, do lado de lá, deixa escapar um suspiro. O seu corpo trémulo é espelho das suas mãos ensaguentadas, do frio que sente, do suor que escorre na sua face. Todo ele é agora um misto de sensações, não de sentimentos.
Conforme se afasta, o meu corpo tende a arrefecer. Talvez a janela se tenha aberto mais um pouco ou então talvez seja a morte que chega, lentamente, com o frio.
Foi tudo medido ao pormenor. Em vez de me provocar uma morte rapida, ele escolheu o castigo extenso, tenebroso, lento, gélido. Talvez eu tenha merecido, o erro possivelmente foi meu. Deixar-me entregar desta forma.
Não se deve amar. Pelo menos, da forma como amei. Pois agora que ele já não me quer mais, foi como se me tivessem morto.
Um homicidio inigualavel, o homicidio de amor.
Deixo-me, então, invadir pelo frio causado pelo seu abandono, esqueço o sangue das suas maõs, o seu olhar invasivo, esqueço que sou e deixo-me ficar tal e qual ele também me deixou. Nos entretantos, espero um corpo quente que me acorde, de novo, para outro amor.
Domingo, Setembro 02, 2007
O vinho branco sobre a mesa. Um trago determinado, sem dúvidas nem incertezas, fixado num olhar permanentemente apaixonado. Cantarolar alguma coisa ao sabor do jantar, sonhar e viajar embriagada contigo, numa rota desenhada a lápis de cera colorido.
Pegas na minha mão sem pensar duas vezes se fugir será a opção mais coerente; corres e transportas-me para outra dimensão. Já não sinto a tua mão. Os corpos flutuam os dois pelo tempo na procura de um equilíbrio onde assentar o olhar. Encontro-te em mim, como se o teu Eu se se tivesse desintegrado totalmente no meu ser.
E mais um trago desse vinho meio seco. Os olhos tendem a fechar, talvez cansados de espelhar gargalhadas e risos. Agora só procuram o repouso de uma noite em que os meus braços são continuação dos teus e as nossas cabeças tombam e os nossos corpos se unem como elos de um colar de pérolas infinito.
E vamos os dois, pela (e na) garrafa de vinho, dormir sossegados, um no outro...como se não houvesse mais amanhã nem mais vinho nem mais «nós»...como se nos tornássemos total e infinitamente embriagados um do (no) outro!
Sábado, Agosto 25, 2007
Hoje.
Se o tempo parasse hoje. Que seria de nós?
Amanhã... amanhã é sempre tarde de mais. Gosto de viver o agora. Porque é que agora estás tão longe? porque me pões tão longe? porque fazes da distância um espaço impossível de percorrer?
Se o tempo parasse hoje e o mundo se destruisse num segundo. Que nos aconteceria?
Gosto de ti. Talvez por isso me enfrasco todas as noites no teu ser. Mas tens de gostar de mim para eu gostar de ti, cada vez mais. Temos de gostar mais de nós. Será um dever? ou temos direito a...?
Se o hoje simplesmente desaparecesse?
Poderia desaparecer com ele... e voltar amanhã, para um novo Hoje.
Hoje.